Espaço coletivo

Entre raiz e rama, a circulação da seiva. A casca que favorece o trânsito.

 Lareira

    Ponto de confluência de energias, a sala é o ambiente onde se reúnem os moradores de uma casa e também seus visitantes. Vibram os afãs, se agitam as emoções. Na sala, os encontros se manifestam, decisões importantes são tomadas (como na ágora), as pessoas falam e transitam, recorrendo a outros cômodos de acesso restrito. Vaivém. Burburinho. Encenação.

     Eixo central do Lar - Axis Mundi - a lareira, pedras que se elevam para além do telhado da sala, equivale ao começo de todas as coisas, à criação do mundo. No fogo que arde está o espírito da lareira, entidade que preside as reuniões, mediando os encontros e a integração das diferenças. Sente-se em casa, centrado, o indivíduo que se conecta ao fogo do lar.

    Por ser o umbigo do mundo (omphalós), a lareira tornou-se em muitas culturas o santuário para o pedido de proteção, constituindo um altar de culto às imagens sagradas.

 

           "O homem é fogo, diz São Martinho; sua lei, como a de todos os fogos, é a de dissolver (seu invólucro) e unir-se ao manancial do qual está separado". (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos).

 

 

  Oficina

      Na área externa da casa, as mãos encontram a terra. Os brotos se elevam entre caules vigorosos. As mãos cavam, afofam, esfarelam o torrão, ajustam a muda, infundem energia psíquica. Acalmam a raiz.

     O jardim pleno assoma lento e lento, matéria da energia universal. Solidifica a fusão, vaso alquímico para a obtenção da cura.

       Mas as mãos que regam e apanham folhas para o chá não se cansam. Pedem o mais-além. Alcance soberano da criação, torcem a manivela, dominam o serrote, alisam a madeira gasta. A caixa de ferramentas se expande, amplia a eficiência das mãos. A vassoura corre, o balde balança, água que desliza para a terra.

      Da janela se vê a árvore mágica; chove lá fora, enquanto a lareira completa a criação.

 

 

   "A fumaça de minha própria respiração,

    Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros.... rais de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,

    Minha respiração minha inspiração.... a batida do meu coração.... passagem de sangue e ar por meus pulmões,

    O aroma das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das rochas marinhas de cores escuras, e do feno da tulha,

    O som das palavras bafejadas por minha voz.... palavras disparadas nos redemoinhos de vento,

   Uns beijos de leve.... alguns agarros.... o afago dos braços,

   Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis,

   Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina,

   Sensação de bem-estar.... apito do meio-dia.... a canção de mim mesmo se erguendo da cama e cruzando com o sol." (Walt Whitman, Folhas de Relva)