Xamã caseiro

O sofrimento existe, mas com ele a medicina. Enquanto as pessoas não descobrem a capacidade de despertar sua própria cura, o círculo de apoio deve operar. Porque até mesmo as pessoas comuns precisam perceber seu poder de curar um amigo. Se o universo dependesse apenas dos médicos e terapeutas para restaurar seu equilíbrio, haveria escassez, carência de saúde em toda parte. Se todos somos a nossa própria cura, podemos ser um caminho para que o amigo doente desperte também os dons de reencontrar o equilíbrio. Há pessoas que estão tão dissociadas de sua integridade, com diversos pedaços de alma perdidos, ou mesmo com intensa dificuldade de reencontrar a parte única que saiu a vagar, que não se pode simplesmente entregá-las ao Universo, como se ele fosse trazer de volta o pedaço perdido sem a parceria de um ser humano. Somos um grande círculo aprendendo a curar. O Todo em partes, as partes voltando para o Todo. Pulsando de mãos dadas. Mas as mãos precisam ser enlaçadas e isso requer uma ação da vontade.

Se na doença física recebemos cuidados, carinho, atenção, seja no hospital ou em casa, por que o sofrimento do espírito (que nada mais é do que a desarmonia em nossas vidas) não recebe sempre o mesmo abrigo? A medicina abunda na natureza. O conhecimento de ervas, chás, aromas e sons pode abrir caminho para o despertar de um xamã caseiro. Mas a maior medicina – e para essa não precisamos de formação alguma – é ouvir, estar presente e ser cúmplice. Não podemos esperar que o sofredor seja autossuficiente, que na solidão encontre meios de reconectar-se com o universo.


Aproxime o nariz de uma vela com pavio curto e chama pequena. Respire o ar que a alimenta. O fogo se apaga.


Quantos não são os sugadores de energia? Se alguém com fogo vivo não reacender a vela consumida, ela sozinha não terá mãos para alcançar o fósforo. O círculo é nosso. No centro de nosso coração, ele pulsa. Se uma vela apaga, nossa chama também diminui.


Não és apenas um corpo mísero e fugaz; por trás da tua efêmera máscara de argila, vela um rosto milenar. Tuas paixões e tuas ideias são mais velhas do que o teu coração e o teu cérebro.

Teu corpo invisível são os antepassados mortos e os descendentes ainda por nascer. Teu corpo visível são os homens, as mulheres e as crianças da tua própria raça que estão vivos.

Só se libertou da danação do eu aquele que sente fome quando uma criança de sua raça não tem o que comer; aquele que dá pulos de alegria quando um homem e uma mulher de sua estirpe se unem.

Tudo isso são os membros do teu grande corpo visível. Disperso até os confins da terra em milhares de corpos análogos, sofres e te rejubilas.

Tal como lutas pelo teu corpo menor, luta também pelo maior. Luta para que todos esses corpos teus se tornem robustos, frugais, preparados. Para que suas mentes se aclarem, para que seus corações palpitem de ardor, bravura e inquietude.

Como poderás ser forte, lúcido, destemido, se essas virtudes não galvanizarem por inteiro o teu grande corpo? Como te poderás salvar se não se salvar todo o seu sangue? Um de tua raça que pereça acarretará a tua ruína. Uma parte do teu corpo e de tua mente irá corromper-se.

Vive profundamente tal identidade, não em ideia, mas em carne e sangue.

És uma folha da grande árvore da raça. Sente a terra ascender desde as obscuras raízes e expandir-se até os ramos e as folhas.

Qual é o teu objetivo? Forcejar por firmar-te no galho e, como folha, como flor, como fruto, sentir a árvore inteira renovar-se e respirar dentro de ti.

(Nikos Kazantzakis. Ascese Os Salvadores de Deus, 1997. Tradução de José Paulo Paes)





Indicações da Arnica: para os diversos traumas externos, quando tropeçamos, desequilibramos ou os pés deixam de suportar nosso peso. São as lesões que o sofrimento nos deixa, e muitas delas chegam a ferir o sangue e interpor uma pedra em seu caminho. A Arnica montana, em forma de pomada e chá (este não deve ser ingerido sem orientação médica, pois pode ser tóxico), é indicada tanto para o tronco como para a seiva. É uma boa enfermeira, trabalha a cicatrização e ajuda a diluir as ideias repetidas que obstruem os canais do sangue. Como floral (Arnica mollis), proporciona a liberação de traumas profundamente enraizados e restitui a integridade da alma. “(...) a alma frequentemente irá reviver ou revivenciar o trauma emocional que acompanhou a experiência original. Dessa maneira, a alma é finalmente capaz de integrar a experiência e de habitar plenamente a parte do corpo que está em sofrimento”. (KAMINSKI & KATZ, Repertório das Essências Florais FES Califórnia, 1993). Providencia a reconexão com o Eu superior e com o Todo, quando a pessoa se encontra dissociada e inconsciente; portanto, uma grande aliada para os xamãs caseiros.



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