...em porto indiscernível...



Já vem já, foi a frase que o homem ouviu sentado em uma pedra enquanto esperava o ônibus. Uma ladeira firme, donde não podia avistar direito, com a incidência da catarata a ocupar metade de suas vistas. Descida dessas de rola-moça e lá embaixo o nada. Muito esperou e não sabe o quanto porque pensou em tantas coisas de fazer a mente voar, tropeçando numa história e noutra, os olhos cheios de lembrança, que era até verdade a chegada do ônibus ladeira acima escondido numa nuvem. Essa lerdeza de pensar era coisa da idade, ele sabia, pois quando macho homem, descia veloz a rua e trotava de parte a parte, seguindo o fogo da barriga, até se misturar na gente. Limpou vidraça de prédio, pendurado na corda, no centro da cidade povoada. Era um riso só quando imaginava o poder de seu traseiro no céu sobre as cabeças ocas lá embaixo. Mas também já limpou as caixas de esgoto das casas, baratas vazando pelas paredes, e um homem oco a olhar sem piedade. Era a ladeira, esse vaivém de cima a baixo. Reclamar não termina, não faz o ônibus chegar. Vem já, disse ele. Rico, pobre, todo mundo espera, e uma hora a coisa anda. Não é mesmo, senhora?

O ônibus parecia sombrio, janelas sem rostos, acentos frios. O condutor seguia fixo no horizonte, boné baixo, provavelmente escondendo a vergonha dos olhos. Um delicado empurrão prenunciava a queda da lataria furada. Mas não tive coragem de transmitir ao homem à minha frente a sensação de calafrio. Nessas situações, a pergunta cala o argumento. Foi este ônibus que te trouxe aqui?

Não, certamente não foi aquela linha. Foi há muito tempo que ele esteve sentado ali, no topo da rua íngreme. Uma história que não se esquece, por isso ele torna a falar com a pessoa que pode ouvir. Continua a andar pelo mundo de nosso deus, a cabeça cansada, mas o que se há de fazer? Faz tempo cortaram a linha que o levaria de onde a onde. Era assim, com as pernas mesmo, que conseguia ainda vender pomada de arnica nas casas que o recebiam. Porque não é todo mundo que aceita o homem pobre na porta. A lerdeza de esperar na pedra aliviou a barriga, a pressa de viver atrapalhado, e podia entender um pouco sobre o pensamento das pessoas, todas da mesma meada, sentadas ou andando. E então, senhora, vai querer arnica?

Dentre todas as ervas de meu terreiro, a arnica despontava longa, folhas estreitas de veludo. Suas flores cor laranja eu só conhecia de fotos, dizem que nos trópicos ela não respira bem. Como, porém, a estabilidade não existe, chegará o dia em que poderei oferecer flores ao homem para misturar suas pomadas. Pra que serve a arnica?

Conhecimento dos antigos. A gente sabe que na farmácia tem pomada de medicina, vem na caixa, com o papel de letras pequenas, e lá está escrito pra que serve tudo isso. Mas essas que a gente simples conhece são milagrosas. Não tem caixa, nem papel. O conhecimento é de boca. Um pouco nas pernas e a dor no lombo desaparece. Serve para quem anda e para quem fica parado. Para quem corre demais e para o dorminhoco. A dor na nuca, quando o mundo cai nas costas, perde a direção. Já viu motorista quando vira na contramão? Tem carro que cai no beco. É assim que a dor some. A pomada é tão boa que uma esfregada dá tremedeira de fazer a alma colar no corpo.

Soldados da marcha, as pernas seguem o mando, servem para transportar. Sem ônibus, aquele homem estava cravado na terra, seguia seu rumo andarilho, desavisado da morte. A idade no rosto descompassava dos pés ilesos, descalços mas sem roturas. Subiam firmes as pernas, eretas como o dorso. O senhor mesmo é um bom exemplo dos poderes da arnica, não?

E seus olhos se fecharam. Lentamente, vi as mãos tremerem com a pomada encoberta. A senhora não sabe, na ladeira não passa ônibus. Tem mesmo que andar, mas a leseira da idade me botou sentado. O povo antigo já me disse que é na crença que o mundo abre. Quem sabe sentado, numa fé bem confiada, a nuvem me trazia o ônibus... Mas não trouxe. Foi longa aquela noite. Mirei a poeira que crescia da terra esquecida no asfalto, o buraco, a caixa de leite, o resto de cimento da construção. O peão deixou uns pregos, amarelo verde; se criança ou adulto, era ali o hospital. Mas a gente não esquece, sobe e desce a ladeira, o fogo é o mesmo. A gente quer é realização. Sabe aquilo de imaginar um prato de torresmo e a mulher na cozinha muda tudo na panela pro torresmo cheirar na sala? Ela nem sabia, entende? A gente vive pelo vento, essa coisa que não tem forma, mas que a crença faz existir. Fiquei de olho nessas coisas, no desmando das ruas, esperando a linha. E só veio a confusão.

Nada além do peso ou nostalgia do peso de uma existência viva.* Era o peso das coisas que o homem esperava sentado na pedra. Preencher de matéria os vultos sem nome, as cabeças ocas tombando dia após dia na ladeira. Talvez o ônibus fosse a materialização dessa busca. Um comboio de gente que ele resgataria do vento. Mas as janelas do ônibus, eu vi, estavam vazias de rostos.

Depois eu já não sei. Caí nessa distração de andar. As mãos agarradas à pomada se abriram e o homem estendeu o frasco em minha direção. Ninguém nunca comprou a pomada, mas essa é meu presente. A gente oca não sabe que ouvir é muito bom. Não carece pagar, um homem cego como eu só procura um bom ouvido.

Era um presente valioso, para alguém que muito anda. Naquele gesto se concentrava todo o conceito de gratidão e desapego. Muito provavelmente, o coração daquele homem estivesse perambulando sem pouso desde que a linha foi cortada, as pernas somente soldados da guerra solitária. Não eram elas e os pés que latejavam da andança, marcadas profundamente com os habituais talhos do combate. Pulsava o coração para fugir da ladeira. Não posso aceitar, o senhor precisa da arnica mais do que qualquer pessoa. E propus a troca: a pomada no lugar de irmos juntos até o ponto de ônibus. Suas pernas não aguentariam o comando por muito mais tempo. Havia tanta entrega à nossa conversa que o homem não apresentou resistência e me acompanhou lentamente até o primeiro ponto.

Já vem já, eu lhe disse. Sentamos os dois no banco de pedra, o sol escuso. Têm dias que acordo com dor nas costas, outros na nuca, e têm dias que é como se as pernas não existissem. O fulgor em seus olhos recobraram cor e a voz com euforia pediu que usasse um teco da pomada. É milagre, os antigos me disseram, toda dor desaparece. Esfreguei nas pernas e nos braços, fazendo uso completo do unguento. É assim mesmo que os sábios me contaram, tem que esfregar, massagear a carne moída, o remédio vai entrar no corpo e espantar a coisa ruim do capeta. É só esperar um pouco, relaxar, dar tempo para a plantinha mostrar seu serviço.

O homem agora já não esperava o ônibus, mas a dissolução da dor que com ele eu compartilhara. Acompanhava em êxtase o ritmo da massagem, atento como se no nada éramos sós. Besuntei as mãos novamente e raspei de leve em seu braço, transferindo uma porção importante para seus dedos. O olhar firme, indicando o que deveria fazer. A alegria anuviou-se, a boca menos larga, mas a atenção seguiu reta para cumprir o dever. Dedos de criança, incertos, traçando linhas paralelas na pele do braço. Nas pernas. Preso em mim, o homem plastificou os soldados descobertos, desceu para os pés descalços, os ombros e a nuca indefesa. Já não era o andarilho à espera do ônibus, mas o homem a caminho.


* Verso do poema O Rei de Assine (1940) de Giorgos Seféris

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