A teia dos homens se tece entre a vida e a morte.

Tear
 
     O quarto é o espaço onde o trânsito termina. Instalado no último recanto da casa, se fecha como refúgio, impenetrável em seus segredos. Nele, a alma se despe, o corpo se refaz e o indivíduo já não precisa lidar com os jogos sociais do cotidiano. Por isso mesmo, é a metáfora da interioridade, que se faz íntegra no livre curso das emoções e pensamentos, representados tanto pelo coração, como pelo útero e também o cérebro.
    Nos meandros do sentir e pensar, a vida humana se reflete intensamente no quarto. Onde se está só, livre do julgamento, da repreensão, das muitas encenações. Quando o espaço é compartilhado, porém, a privacidade se resguarda por uma tênue cortina de algodão, fazendo do refúgio um lugar dúbio, seja porque o amor é permitido e o outro estará sempre presente, seja porque há sempre o outro a encarnar a necessidade de máscaras. Nesse segundo caso, a respiração não se naturaliza.
       O quarto concentra assim, toda a complexidade da vida humana. Se por um lado, há o sono, o sonho, o amor, a reflexão, o relaxamento; por outro, o homem se defronta em seu espaço íntimo com a insônia, a preocupação, o choro, a raiva, a solidão, a doença e a morte. A duplicidade presente em um recanto interior favorece, porém, a criação, o entrelaçamento das tramas do destino, que aqui representamos pelos fios urdidos no tear.
       A prática da tecelagem (um atributo feminino na tradição) prefigura a relação com a manutenção da vida e da morte, com a instauração de mundos, com a ordenação do espaço e com o ato de engendrar narrativas. Desse modo, a complexa teia de emoções e conexões entre os homens pode ser tecida a partir do espaço recôndito, do mundo interior que assoma no quarto.
 
Olaria

       A preparação de alimentos é tão antiga quanto a transfomação do barro em vaso. Oleiro e cozinheiro lidam com os quatro elementos, com a matéria mais primitiva, que vai do caos à ordem. Um vaso não só alimenta, como também protege, desenvolve, oferece, contém a vida e a morte. O caldeirão, onde o alimento é processado, é também o útero que altera os humores, transmuta as personalidades e tem, potencialmente, a capacidade de envenenar. O mesmo recipiente que mantém a vida pode acolher a morte.

       Cozinhar e moldar o barro são pois, atividades sagradas: o quente e o frio, o úmido e o seco, o fluido e o delineado, o cru e o cozido, o verde e o maduro - polaridades de uma mesma linha que, nas mãos do bom oleiro, são equilibradas e fundidas na matéria, assim como as emoções que oscilam no plexo solar (estômago) são transmutadas no caldeirão da bruxa.