Sótão

O sótão fascina, repele e convida. Na árvore, são os galhos, a parte visível e expressiva da criação humana, sua manifestação no mundo. No ambiente recôndito do patamar mais alto se guardam múltiplas experiências, esparsas e reunidas, que revelam por quantos caminhos o homem é capaz de seguir em seu itinerário. O passo da memória convida a adentrar o sótão para descobrir, explorar e imaginar o que se esconde na matéria. Passo a passo, vela acesa, e os fragmentos ganham movimento.

Biblio

        O amor às palavras registradas na matéria – papiro, pergaminho, códice, papel – é tão antigo quanto o surgimento da escrita. O livro, em suas variadas formas, acompanha o desenrolar da história humana. Ações grandiosas foram feitas em favor dos manuscritos, como a edificação de bibliotecas suntuosas e completas, que tem em Alexandria sua maior representante, e o aperfeiçoamento das técnicas de reprodução de cada texto, que nascia único. Os esforços de copistas e escribas por assegurar a permanência da memória de seus antepassados e de seus contemporâneos, além de ser tocante, é a declaração de que os livros sempre tiveram uma importância fundamental na existência do homem. E mesmo as ações naturais que assolaram bibliotecas inteiras, bem como os feitos propositais de inimigos para que muitas obras não alcançassem a posteridade, não tiveram a força de arrefecer uma paixão que perdura hoje.

Edição do mundo

Segundo Gérard Genette, em Palimpsestos:

 

Um palimpsesto é um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para se traçar outra, que não a esconde de fato, de modo que se pode lê-la por transparência, o antigo sob o novo. Assim, no sentido figurado, entenderemos por palimpsestos todas as obras derivadas de uma obra anterior, por transformação ou por imitação.        

 

     No sótão, nossas ações se delineiam por meio da raspagem, em busca do antigo oculto em seus estratos. Escrita de segunda mão. Edição que se dedica à escavação para a colagem de um mosaico. Construção do mundo "à minha imagem, um mundo onde me pertenço, e é um mundo de papel" (Antoine Compagnon, O trabalho da Citação). Editar implica eleger, selecionar os gritos que serão recuperados da tumba. Edição que se mistura à escrita para forçar a abertura de uma passagem.

Ogham

       Alfabeto celta, de 20 letras, utilizado pelos druidas. Sua criação remonta a 2200 a. C., provavelmente pelo deus Ogma, poeta, músico e especialista em dialetos. A seguinte tradução de Ogham tem sido sugerida pelos estudiosos: "aquele que é hábil com as palavras".  O Ogham era uma forma de comunicação secreta, muito semelhante às runas. Cada letra é associada a árvores e suas características específicas.

      A Casa de Corina foi erigida em uma árvore e faz uso dessa escrita tão antiga.